…e afinal…

[A televisão com o som audível – apesar da hora tardia – ocupa o espaço sonoro da cena, que é composta por uma sala vazia com uma televisão ligada num canal estrangeiro, onde passam telenovelas argentinas com legendas em coreano, ou chinês. Vemos as costas de um sofá alto, e só temos a noção de que está ocupado, porque de um dos lados pende um braço de cuja a mão aberta em abandono caiu um copo. Percebem-se alguns diálogos entre os participantes na novela, mas outros perdem-se em ruídos de estática…]

«Sabes que afinal é verdade?
Tantas vezes gozamos com isso, mas tive de dobrar a língua e admitir,… foi desde o primeiro dia em que te vi. E sabes que o Tempo não faz esquecer, antes aprofunda? E o que dizer dos reencontros? Completamente arrasadores. E os anos, as rugas, as brancas… …nada tem importância… …para mim ainda és aquela menina doce… …é pior que o inferno, o que não se declara no devido tempo… …nada há de pior que o arrependimento… …o arrependimento é a imagem mais próxima do infinito que existe, para nosso mal…
(ruído)
…já vi a tua sombra…
(ruído)
…tropecei na distância que criaste, e com os queixo na gravilha percebi…
(ruído)
…com certeza te desiludi…
…porque a mim próprio me desiludi imenso…
(ruído)
…desta vez vou respeitar a distância,
aquela do espaço, como a do Tempo…
(ruído)
…só eu e Deus sabemos como me arrependo de ter sido tão cobarde naquela idade…
…porque me calei? porque não disse?… …agora é muito tarde…»

[Estremunhado, produzindo ruídos de engasgo e ressono, despertando, o personagem que estava sentado na poltrona se levanta cambaleante. Desliga o televisor. Desliga as luzes.
Mas antes de desaparecer da cena, pára um pouco no escuro. Não lhe vemos a cara, mas percebemos que se recorda de algo. Um profundo suspiro desperta-o do torpor, e abanando a cabeça sai de cena. Ainda se ouve: «…desta vez vou respeitar a distância…». O Pano desce lentamente. Fim]